Wednesday, December 20, 2006

Recaída

Senti isto chegar antes de acontecer. Já o esperava. Na verdade, quase que o desejava. Sou masoquista, não é verdade? Sim, sou.

Após meses seguidos sem sequer me recordar que ele existia, o coelho regressou. Não, não o voltei a ver nunca mais. Mas, secretamente, comecei a desejar que ele voltasse. Desejava vê-lo numa das minhas saídas a algum local LGBT. Desejava vê-lo sempre que ia à foz. Desejava encontrá-lo numa loja, na rua, fosse onde fosse.

Não que houvesse alguma frase em especial guardada para ele (consigo pensar em algo na linha do "foste um cabrão indecente"). E sei que a utopia sorridente que desejo não ultrapassa o sonho. No entanto, a base de tudo isto é eu ainda sonhar com ele.

E hoje, finalmente, não resisti: fui vê-lo ao seu hi5 (para tal precisei de entrar pelo de um amigo, mas sempre foi assim desde que ele me apagou da sua vida), ver que tinha fotos novas (...!?), que andara a adicionar 1001 raparigas aos seus contactos,...

E mandei-lhe uma mensagem, feito idiota:

irrita-me o facto de te ter conhecido ha um ano e ainda conseguir sentir qualquer coisa por ti
Era so para te lembrar que foste extremamente indecente na maneira como lidaste com a situação; se fosse uma gaja nao ia ser bem assim.
Mas pronto, que se lixe. Nem sequer espero que leias isto, menos ainda que respondas. So escrevi isto para me recordar que a minha vida anda uma m***a porque não consigo desligar de ti.


fica bem

*suspiro*

Sunday, December 10, 2006

Nunca Virás

Vieste com as ruas sem fim; Vieste com os becos nas noites frias despidas de céus, onde as lanternas dançam lasciva e secretamente com as estrelas; Vieste com o frio do Verão, a brisa estéril do que nunca virá a ser nosso; Vieste com a eutanásia do mundo, a piedade para com este globo moribundo; Vieste com o aglutinar da vida, com a escuridão do Paraíso;

Vieste com a suspirada constatação das ilações indesejadas; não vieste, pois não?

E o eco gritado das palavras sem voz preenche a lacuna infindável do meu ser; E os corpos brincam entre si como convites para o desejo alheio, provocando um qualquer paladar doce nesta boca que te pertece sem o quereres; E o sangue perde-se na chama sem vida das estradas atrozes, fáceis, curtas, secantes e viciosas; E os lábios fundem-se, gelados, com uma boca qualquer, numa vã tentativa de calar os pensamentos tortuosos que sufocam o coração;

Pobre memória do que nunca fomos.

Pobre criança que já não sou.

Pobre inocência, empalada.

E tudo o que sobra é tristeza; e é na tristeza orgásmica que perdemos a certeza do ser. Morramos, então. Definharei, insensível, fatalista, cruel.

Pudera eu não ser um cobarde. Pudera eu saber-me viver.

Definharei, então. Lábios seguirão os caminhos putrefactos das bocas que já não podem beijar, das peles que já nem desejam sentir, das vidas que já não se podem expressar. Apodrecerei, então.

E tu não virás, não serás, não me levarás daqui, deste cemitério caridoso, desta piedade que me mata a cada inspiração, deste atrofio mental.

Porque tu não existes.