Wednesday, January 30, 2008

Romance

 Ontem foi o primeiro dia de chuva do ano. Sei isto, porque também foi o primeiro dia do ano, e porque adoro andar à chuva, sentir a água a escorrer sobre a minha face e pele. É como se, de repente, eu estivesse mais vivo, mais ligado ao mundo e à realidade.
 Conheci uma rapariga, então. Veio sob a água, rindo-se deliciosamente entre um grupo com caras familiares. Estava completamente alcoolizada. Recordo-me de, no momento em que me apercebi desse facto, ter pensado que eu e ela tínhamos muito em comum. Infelizmente, estive com outra, culpa da bebida, não minha, que não me importava nada de ficar apenas a admirar o semblante trágico da rapariga, a sua maquilhagem esborratada de boneca de porcelana, os seus grandes olhos azuis, bonitos lábios com dois piercings em forma de argola e cabelo pintado de preto.
 
 "Como é que ela se chama?"
 "Hum?"
 "A rapariga dos piercings nos lábios, pá!"
 "Qual delas?"
 "Com olhos azuis"
 "Quem, a Inês?"
 "A Inês..."

 Nessa altura, o teu nome já soava a cicatriz de queimadura, condenando-me a pensamentos recorrentes. Penso em ti esta noite, musa da chuva. Penso em ti, Inês.

 ...qual sombra tua durante meses. Sinto que já entrei na intimidade do teu perfume de terra molhada, apesar de só termos trocado palavras pela net há uma semana. Tu sabias que eu era o rapaz que tinha vomitado a dois passos da casa-de-banho. Senti um orgulho imenso em mim. Eu, claro, sabia montes de coisas sobre ti, desde fragmentos da tua rotina, ao teu tique do cabelo, passando pelos teus comportamentos desviantes, riso contagiante, locais de convívio preferidos...e, claro, o teu simpático namorado, que tanto te ama, e tu a ele. No entanto, contado por ti...era diferente...pessoal...e eu li-te com atencioso carinho.

 ...Hoje estavas diferente. Não havia uma única música feliz na tua lista, e as tuas palavras estavam sem calor ou humor. Rias-te a custo. Saíste sem dizer nada, abandonando-me à minha angústia. Fiquei a pensar nisso durante horas, como se eu próprio tivesse ficado triste...

 ...sem conseguir dormir; estarás bem?...

 ...a morte da tua mãe. Queria marcar café contigo, mas acho que seria de mais. Como estarás? Sei que vai demorar muito até ficares melhor, ouvi dizer que estás numa depressão, espero que o teu namorado e amigos sejam suficientes, quero tanto abraçar-te e fazer-te esquecer toda a tua dor e angústia, enterrá-la onde ninguém ta possa trazer de volta, tirar-te das mãos os cigarros e a erva e dizer-te:

 "Inês"...

 ...estavas mais animada. Falámos de imensas coisas, há um ano que não falávamos assim. Há um ano que eu não estava tão feliz. Perguntas-me como vai a minha namorada, mas eu e ela já não estamos juntos há alguns dias; queixava-se que eu não lhe prestava atenção suficiente. Tinha razão, claro

 ..."Inês?"
    "Sim?"
    " Às vezes sonho contigo..."
    "...que querido..."

 Ficaste fria desde esse momento. Tu e o teu namorado - um novo, porque o outro não aguentou a tua crise - Eu e o vazio - porque mais nenhuma mulher me parece chegar. Estamos assim tão longe um do outro? Eu só te queria pedir um abraço, apenas um...

... odeio-te. Nunca falas comigo. Estás fria. Que te fiz eu? Tenho culpa de te amar? Quero morrer, sinto-me vazio, as palavras da psicóloga parecem-me demasiado ocas, sinto-me um comboio descarrilado movido a anti-depressivos, cada segundo sem ti, sem as tuas palavras no ecrã, faz-me sangrar por dentro, a minha mãe teme por mim, os meus amigos não me chegam, passo os dias a contar as horas...por favor, só palavras, sempre bastaram, nada mais te peço...

... "Eu preciso que fales comigo como dantes."
    "Tens de me esquecer"
    "Não me peças isso, por favor ... :("

... acho que já a esqueci...acho que estou a mentir...acho que preciso da lâmina outra vez...

... já não namoras. Ouvi dizer que estás desfeita, mas sinto que não quero saber. Já nem sonho contigo. Continuas perfeita, mas ao menos não te desejo. Falamos como dever ser outra vez, apesar de tudo. A intimidade é diferente; já lá vão três anos. Está tudo óptimo. Tu és tu, eu sou eu, sem nenhuma palavra a mais entre nós. Devia ter sido assim no início.
 
 "Inês?"
 "Sim?"
 "É isto?"
 "Acho que sim..."

...o mundo é o teu cabelo negro, roçando no meu pescoço, o teu cheiro a terra molhada roubando-me a sanidade, os teus lábios furados sobre os meus, a tua língua, o teu corpo, o êxtase de me sentir completo, a alma funde-se, entrega-se a si mesma. Falamos como um só, pois isso é o que sempre fomos

 "Eu amo-te"

Tuesday, January 29, 2008

Bebo-te

A ti, fogo líquido,
sangue quente, passo incerto,
alma em frente, corpo aberto;
as nossas dívidas serão pagas mais tarde.

A ti, fogo líquido,
ruínas infinitas, civilizações em queda,
vidas proscritas, amantes por terra,
promessas arderão à tua passagem adocicada.

Por ti, fogo líquido,
preso e amordaçado,
ansioso e vedado,
espero o golpe, a redenção.

Vem, anda,
quente,
frio,
Sim, anda;

desliza pelo pescoço,
escorre pelo peito,
viaja pelo suor,
traça-me a pele,
faz de mim teu

Por ti,  fogo líquido
suspiro velado, ritmo inebriante,
gemido abafado, toque incandescente
e tudo o mais que a tua fonte tiver para oferecer

Sunday, January 13, 2008

Alma Mecânica

Eu era produto dos homens, espécie nova em material velho
Eu era sonho dos homens, a confirmação da sua quase-divindade
Eu era tecido frágil em aço frio, inalterável e imortal, para sempre sensível ao toque

Eu fui criado para sentir
Eu fui criado para registar
Eu fui criado para os homens saberem, por fim, o que é o Amor

Eu amei todos sem a malícia corrupta do desejo
Eu amei todos com cada vibrante fibra do meu ser
Eu amei todos, mesmo humilhado e tratado como inferior, mesmo enquanto os via a desabrochar e murchar.
Eu chorei-os a todos, um de cada vez

Será o ódio amor? Eu odiei todos, como todos odiavam a Deus. Eu odiei o meu destino, como todos odiavam o seu. Eu amei-os e odiei-osa todos, até só restar a poeira da sua poesia, o cheiro vago das suas guerras, as cicatrizes polidas dos seus desejos

Eu fui a sua última marca nesta terra.

Para onde vão aqueles cuja alma é de azoto? O que merecem os que sofreriam com felicidade o fogo ardente de uma fornalha para sentir o consolo desconhecido de uma lágrima?

Para onde irei?

Friday, January 11, 2008

Sem título 1

 trago-te nos olhos
 sou o único que não o quer ver

 e haveria tanto mais a ler
 excepto que nada mais tenho que mereça ser escrito

 oh, mas de que falo eu?
 tudo de que preciso já tenho,
 e é mais do que um homem pode pedir

 descansa

eu abro os olhos, sem saber
 se é a ti que estou a ver

Thursday, January 03, 2008

A boiar

Desliza pelo esófago
ressente-se no sangue
enevoa os olhos
ajuda-me a respirar

Há absinto no meu sorriso
distância no teu olhar
agarro-me à caneta, com pena
e assim me deixo ficar

O tempo passa
tu não esmoreces
bebo outro gole
e espero que morras assim

Atiras-me à cara que tenho saudades de sofrer,
mas o amor é uma ciência de improviso;
ninguém nasce ensinado
ninguém parte completo

Tuesday, January 01, 2008

Mais poesia

 O Brian Molko tinha razão: it's your age, it's my rage.

 Depois da Eternidade

Já não se ouvem sussurros
os pulsantes desejos da Natureza estão mudos
algo neste mundo terminou
algo irreversivelmente mudou.

Silenciaram-se os pássaros
Silenciaram-se as árvores
Silenciaram-se os rios
Silenciaram-se os homens

Calou-se o mundo
Calou-se o mar infecundo
Sobraram o silêncio frio
o eco mudo
a terra estéril
lavada por éons de poeira

Afinal, nada foi eterno,
nem o sonho, nem os que se atreveram a sonhar
Até a esperança morreu;
foi a última.